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terça-feira, 23 de junho de 2009

Caminho B


De repente o ambiente sóbrio encheu-se com um olhar atrevido. As risadas seduziam sem que fosse preciso trocar uma palavra. Aos avisos recebidos levantou os ombros. Simplesmente continuou. Uma leve arrogância lhe fazia acreditar que as coisas sempre podem ser diferentes. O elevador, o táxi cheio, a farmácia. A cadeira que quis trazer para mesa. Erro. Tudo começava a falar não. Do outro lado uma história sonhada irrealizável. O banheiro, o beijo e toda irresponsabilidade do mundo. Acostumara-se tanto em viver coisas passageiras. Dessa vez parecia que o mar daquele lugar escandalosamente deslumbrante estava lhe dando um presente. Esquecera que o presente pode ser de grego. Como bomba relógio, a qualquer hora, o cavalo poderia se abrir. Como um catalizador ajudou que um lado ficasse mais próximo daquele olhar. Incendiou o que até aquele momento não passava de pensamentos. Tornou o impossível realidade. Mas não para si. Se gostava de olhares atrevidos, quem sabe o seu também fosse. E assim de rio em rio é que acabou por se afogar. Sem restar nem um amigo. Com a imagem de que depois de catalizar, seu corpo agora necrosa. A dança da vida no encontro do inesperado acaba sempre a repetir os movimentos mais conhecidos. Esquece de tentar se surpreender. Mas finalmente chegara a hora de voltar e escolher o caminho B.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Equilíbrio


Hoje me contaram que ando de um jeito estranho. O desaforo foi tão grande que chegaram a acreditar que podia ser alguma doença. Meio como se eu tivesse pés de pato. Eu que nunca reparara no meu jeito de andar... agora sigo analisando minha sombra. Parece que só um pouquinho do meu pé esquerdo é que vira pra fora. E se esse é o defeito que sustenta meu edíficio? Verdade também que eu levo muitos tombos. De repente uns olhos esverdeados de pele morena me passaram mais uma rasteira. Com a perna meio torta não poderia sustentar todo o edifício sem derreter um pouquinho. Esses mesmos olhos me assustam um pouco. Às vezes parecem querer muito de mim, outras só a leveza. Não sou de resistir a encantos assim. Vivo tão absorta em meus pensamentos que parece difícil fazer curva. Mas quando as cores me cruzam... Sabe, pra quem anda torto tudo parece complicado e fácil. Num primeiro momento mudar o caminho parece só uma continuação do outro. No entanto, ao virar a curva se percebe o quanto doem os pés de quem sofre desses males. Me pergunto se um dia vou curar esse meu pé torto. Essa minha mania de carregar caixinhas de histórias do lado esquerdo. Pode ser isso que me faz entortar tanto pra um lado. E hoje fizeram o meu diagnóstico. Disseram que é um jeito diferente de balançar. E eu que nem sabia que balançava. Quem me dera poder esconder esse mar caótico lá dentro. Pode ser que esses olhos verdes do norte resolvam beijar os meus olhos verdes frios. E se eles ficarem aquecidos pode ser o começo de um lado esquerdo mais equilibrado.

terça-feira, 17 de junho de 2008

Não podes dançantes

Um certo sentimento gostoso me fez voltar a fazer viagens altamente machucativas. Dessa vez o sabor nem era misturado. E esse passeio era daqueles que vão revirando tudo que encontram dentro da gente. Dia vira noite, paixão vira ódio, medo vira vontade. O coração mostra língua. O estômago se espreguiça. E o pescoço alcança as nuvens. Mas era como se uma tomada me perseguisse. Disparava seus choques e assim não me deixava esquecer. Entreguei-me àquela luzinha. Com um leve mexer de ombros empurrei pra longe todo não pode que me atormentava. Ficaram ali no canto desmaiados, esperando seu tempo de voltar. Fiquei bem quietinha. Queria ver se eles não acordavam do torpor do esbarrão. Olha, tava dando certo, té que em uma noite de lua cheia, alguma coisa lá dentro gritou. Acho que era esse meu monstro que eu tanto escondo. Ele despertou os não podes. Mas como estavam atiçados com as estrelas, resolveram falar não pode para a tristeza. Que rebuliço feliz. Dançaram os não podes e as estrelas. Deram vivas. Contaram-me meu conto de fadas preferido, que é aquele que as cores todas se misturam. Então demos todos as mãos e dançamos o resto da noite daquele jeito que parece que os corpos vão se misturando. Porque até os não podes, às vezes, esquecem do não.

terça-feira, 6 de novembro de 2007

Lembrou de esquecer o amor....

Um dia acordou e lembrou de esquecer o amor. A alma estava precisando de roupa nova. Seca, crua, insossa. A angústia a domina há tempos. Não sabe andar vazia. Traz a dor. Quer dançar. Quer outra música. As cicatrizes não passam de uma marquinha. Nem pensa mais nelas. O fascínio acabou. Elas podem morrer. Ir embora. Não vai sentir falta. Aquele cachorro lindo de pêlo preto, com o seu dono deliciosamente apaixonante. O sal até reaparece. Mas, a semana inteira no quadrilátero branco... A intensidade precisa tomar conta do espaço todos os dias. Colhe folhas secas no sábado. Sai de lá e tudo reluz, menos os olhares. Continuam no escuro. As nuvens não param de fazer chover. Os dedos nem mais sentem o frio. O dia vai e toma conta do palco. A bailarina se impulsiona, gira. Os movimentos não são lineares. Quebram-se no vento. Ela persiste nas linhas tortas. Aperta, contrai, estica. O limite do corpo. O limite da alma. Não sabe se é bom encontrá-los. As estrelas cantam no seu ouvido. Ela grita. A porta bate. O vazio permanece. Chapeuzinho Amarelo não quer brincar no jardim. A criança não quer ir embora. Isso lhe causa dores terríveis. Mas têm ali um par de óculos. Um super herói. Escondido atrás dos livros. Ele a deixa livre para que continue a fazer castelos, a desenhar linhas. Ela precisa do grito, do gemido, do orgasmo.