À minha mais solitária vizinha do nome esquecido e da face embaçada pela memória, do choro abafado pelo barulho dos pratos, da voz encoberta pela sombra daqueles que não enxergam a porta da frente, das cartas engasgadas na caixa do correio, do dicionário de inglês que nada podia falar das palavras que, quem sabe, contassem sua angústia, dos vizinhos tão ensimesmados em suas mediocridades, sinto dizer que o dia amanheceu tão cinza quanto aquele em que você se foi. Apesar de as rosas estarem floridas no jardim, não há vida do lado de fora do vidro. Continuo por um impulso inicial que ainda não chegou ao fim. Às vezes quase o ciclo estaciona, mas aí bate um vento, cora meu rosto, e, faz meu corpo reverberar no movimento da vida. Confesso não compreender o sentido dessa nossa existência tão solitária e sinto como se minhas cordas vocais, veias, peito e alma se rasgassem. Ainda pior é saber que não lhe levarei nenhuma flor, não lhe dei nenhum sorriso nem lhe emprestei uma caixa de fósforos. Se seu sofrimento tiver chegado ao fim, fico aliviada e respiro melhor por alguns segundos. Como se soltassem o cinto opressor que insiste em se costurar na altura do meu pescoço. Se pudesse lhe oferecer algo, gostaria de lhe dar a sensação de um passeio a beira mar em um dia de céu azul e vento gelado. O sol no meio da paisagem aquece o corpo, nos cega para a realidade e nos faz delirar com cores jamais vistas e que certamente não existirão.
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quinta-feira, 11 de junho de 2009
terça-feira, 9 de junho de 2009
Transtorno
Pina Bausch (foto)Mesmo que o furacão pare, que o vento cesse, que os dias passem mais devagar, que a chuva dê trégua... já ficou claro... o sol se abriu, secou o chão, abriu sorrisos para desaguar mais uma vez em tempestade... a noite não irá arder, o tempo não se fará presente e o livro ficará, por muito tempo, sem as últimas palavras.
terça-feira, 27 de maio de 2008
Vingança mode [off]
Faz uns dias que uma coisa muito importante para mim acabou. Sim, eu sou lerdinha e demoro séculos pra processar tudo. Mas, juro, juro, que não sobrou nada... nem amor nem ódio. Mas enquanto eu ainda estava tristinha e remoendo o passado era tão reconfortante ouvir essa música na voz da Mônica Salmaso...
Vingança (Francisco Mattoso e José Maria de Abreu)
Lá na beira do roçado,
Onde a tristeza não vem
Eu vivia sossegado
Com a viola do meu lado
Mais feliz do que ninguém
Numa festa no arraiá
Vi dois óio a me olhá
Decidi no improviso,
Ela me deu um sorriso
E comigo foi morar
Nunca mais fui cantador
E a viola descansou
Eu vivia pra cabocla,
Eu vivia pra cabocla
Só pensava em meu amor
Nunca fui feliz assim
Eu mesmo disse pra mim,
Pensei que a felicidade,
Pensei que a felicidade
Não pudesse ter um fim
Mas um dia a malvada
Foi-se embora e me esqueceu
Com um caboclo decidido,
Juca Antônio conhecido
Cantador mais do que eu
Já cansado de esperar,
Desisti de procurar
A cabocla que um dia
Levou minha alegria
Eu jurei de me vingar
Numa festa fui cantar
E a mulata tava lá
Juro por Nossa Senhora
Juro por Nossa Senhora
Que a cabocla eu quis matar
Mas fiquei sem respirar
Quando vi ela dançar
Ela tava tão bonita,
Ela tava tão bonita
Que esqueci de me vingar
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