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quinta-feira, 29 de outubro de 2009

A prisão dos dias de sol


Os dias bonitos são uma prisão para as almas livres que devem se submeter a cansativa e irritante rotina do trabalho. A luz do sol misturada com a névoa azul do céu nos primeiros minutos da manhã penetram a atmosfera prometendo calor. Animam a pular da cama cedo. Dez horas o frescor do dia é substituído pelo sol quente. A cama já está vazia e arrumada. As flores lá fora parecem mais coloridas e sorridentes. O peito se acalma. Mas como passe de mágica começa o corpo a sentir os melindres desastrosos da prisão. A contemporaneidade nos aprisiona no mundo da informação. Não há tempo para deixar o sol penetrar lentamente na pele e os olhos fantasiarem com as cores ao retornar para dentro de casa. Não há grama, nem jardim. O mar está ali, mas não há água. O acinzentado das ruas, das águas, dos dias poluem o dia ensolarado. O vento faz as suaves asinhas das margaridas na garrafinha de coca-cola voarem. Minha lembrança voa junto com as pétalas para as tardes mais felizes de verão. Aqueles dias no sítio. Desenhados com as cores mais fortes e as sensações da água deslizando sob a pele, a garganta, os olhos e até, certas vezes, infelizmente, pelos ouvidos. Eram vivos os gritos contornados pela água da piscina que saiam da boca das crianças. Dez, quinze pequenos serezinhos que não imaginavam um dia encontrar o cinza. Era o barro, a água, a grama, as frutas que preenchiam cada pequena existência. Escurecia, mas o calor... ali, sempre ali. Aquecendo com ternura as noites cansadas. Depois de cai, levanta, briga, brinca, era hora de sonhar com o outro dia. O que esperar hoje para amanhã?

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Tempo de ser sua


Dias de náusea. Amanhecia e contava as flores no quintal, os ladrilhos do banheiro, as tábuas do chão. O tic tac do relógio ... na mesma velocidade. A respiração cadenciada custava-lhe toda ansiedade. Um samba morreu. Ela morreu. Os pensamentos boiavam na piscina.
Ventilou o corpo com ternura. Aqueceu suas angústias na beira d´agua. Aquele amor de que tanto tinham lhe falado. Nasceu. Não aquele que ela dava em troca de suas cores.
Só ela sabe o quanto lhe perturbava o barulho ensurdecedor de seu passado. O silêncio famigerado dos amores não enterrados. Assim, decreta o fim dos assaltos. Impossível que levem dela o que nem tem. Nunca mais.
Promessa boba. Pronta pra ser quebrada. Feita exatamente porque sabia que não poderia ser cumprida. Mas foi a salvação. Rastreiam o céu. Ninguém podia saber. E se lhe contassem, ela não ouviria. Ela se reconhece, se conhece, se toca.
Finalmente descobre que se movimentar os olhos para aquele lugar, voltados naquela direção, verá milhares de estrelas. Como são bonitas. Brilha! O calor voltou para suas pernas. Achou aquilo que tinha perdido em uma aventura.
Tão jovem e tão esperta. Custou-lhe um par de anos pra saber que já conhecia seu próprio segredo. Embriagada pelo hálito daquela noite, destrancou sua verdade.
Ela não é uma novidade, nem um passado, apenas a vontade de pertencer a si mesma. O cheiro dos dias voltaram a ser só dela. Cansou de dividir pensamentos e roubar idéias. A pele ainda se cura de tantos machucados. Mas ela sabe que conseguiu colocar um ponto final.