sábado, 22 de março de 2008

"A menina dança dentro da menina"



A sensação de estar no mundo errado jamais lhe abandonara. Ainda mais amargo era saber-se desajeitada no lugar onde lhe colocavam. Sabe o jogo de achar países? Ela acabava sempre na Espanha, mesmo desejando a França. Quando lhe parece rosa é cinza. Na esperança de o cinza se colorir, joga conversa fora. Vascila e pisa em falso. Volta pra casa com a cabeça desaguando em desentendimento. O animal perfeito esconde-se. Foge. Ela está prestes a matá-lo. Mas ele é bravo como a avó com medo da seca. Um dia, o rosa vem. De novo. Ela sempre desejara um vermelho desconfiado daqueles. Sem provar. Mas lhe parece tão gostoso. Sabe, ela sente o gosto de brincadeira. Daquelas que ninguém está preocupado com a medália. Os gritos pulam da boca das crianças. É como se ela voltasse a acreditar que pode convidar alguém para o gira-gira. Lembra das cores dos olhos fechados? Pode ser que elas existam mesmo sem sol.

domingo, 9 de março de 2008

O dia que vai bater diferente!


Todos os meses do ano passaram até chegar hoje. Primeiro o coração enrijeceu. Parecia que tinham lhe dado veneno. Bastava um suspiro para ativar o mar de lágrimas. Mágoa que se desfazia em tempestades serenas. A dor de amar e desamar. Fúria despejada naquele que antes recebia os gestos mais doces do mundo. O pensamento não conseguia se desfazer dos recortes coloridos que aquele tempo deixou. O corpo contorcia-se na espera do calor com o qual havia se acostumado a passar as noites. A alma desfalecia. Como começar se não acreditava no fim? Ouvidos cansaram daquela ladainha. O sol tentou roubar do quarto tudo aquilo que ele tinha ganhado durante aquele tempo. Não era pouco, nem fácil. A cidade era nova, mas tudo que queria era a velha. Sonhava com dias acinzentados eternecidos por aquele outro corpo. Mas, pouco a pouco, a nova cidade foi se tornando realmente ensolarada. Pois naqueles dias vivia dentro de uma nuvem de fumaça. Nem um palmo a frente do nariz. Tentou enganar o coração com a razão. Mas o corpo sempre estava lá pra não deixar esquecer. Os olhares nem se encontravam mais. A alma amada já não lhe pertencia. Pertencer... que coisa boba! Dia a dia e um cantinho a menos daquele peito doía. A vida voltava a se iluminar tãaao devagar. Um dia reencontrou um amigo em uma cidade tão ensolarada quanto a nova.Naquele lugar que muitos já foram felizes. Era uma companhia antiga, com velhas memórias e novas histórias. Tinha também um carinho especial. Ele achou a chave do corpo dela. A alma não esquentou novamente. Nem mesmo um dos dois queria isso. Mas o corpo voltou a acreditar... Ainda acontece de a moça acordar domingo com saudade daquele quarto gelado. Lá onde apenas dois corações jovens e eternecidos vivam às gargalhadas. O corpo não sabe como seria encontrar de novo aquele cheiro. Sabe que naquela cidade cinza há um coração sendo amado. Mas,serenamente, apenas espera o dia de bater diferente de novo.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Dias de sim e de não


Ando sempre reto. O caminho é que entorta. Encontrei uma passagem escondida. Perguntei o que tinha. Achei que não precisava, mas entrei. Experimentei. O cheiro desagradou. Saí. A vida pareceu encorpada de novo. Desafiei com olhos apertados. Bati de frente com os escândalos alucinados. Ora driblei a certeza, ora corri em seus braços. Perdi-me em frações de segundo esfumaçados. Escureci. As bifucações se calaram. De repente, O GRITO. Meus sentidos pedem o fogo. Aventura nem parecia meu forte. Eles viram meu sorriso de sim, pois não, bom dia. Não quero. Desagrado. Descontento. Deságuo em dias ensolarados. Desgostei do vai e vem do ar no meu corpo. Quis que tudo se calasse. PSIU!!!!! Mas aquele tic tac danado! Nada de passar.

domingo, 13 de janeiro de 2008

Saudade


Cansei de sentir saudade... Acordei hoje cansada. Decidindo que não queria mais ninguém que pudesse me tirar um milímetro do meu gosto de viver em um lugar. Por que eu já morei em tantos lugares assim? São quatro cidades diferentes. Mas contando os lugares que as pessoas que eu amo nesse mundo moram... olha, não deve caber nos dedos das mãos... Nem me atrevo a contar, porque vou lembrar de gente que eu nem sei mais onde está morando. Tem gente até que nunca vi na vida e tenho saudade. Como pode?
Num dia rimos, trocamos confidências, inventamos brincadeiras. No outro: a estrada. Cada um pro seu canto, pra sua casa, pra sua vida, pros seus mais milhares de outros amigos, pros seus amores, pros seus interesses. Eu também... mas como tenho saudades dos que não estão aqui...
Se eu pudesse, não conheceria ninguém a partir de hoje que morasse em um raio maior que cem quilômetros da minha casa.
Mas como fazer isso com toda essa minha vontade de conhecer o mundo?
Que vidinha... que vidinha...

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Tempo de ser sua


Dias de náusea. Amanhecia e contava as flores no quintal, os ladrilhos do banheiro, as tábuas do chão. O tic tac do relógio ... na mesma velocidade. A respiração cadenciada custava-lhe toda ansiedade. Um samba morreu. Ela morreu. Os pensamentos boiavam na piscina.
Ventilou o corpo com ternura. Aqueceu suas angústias na beira d´agua. Aquele amor de que tanto tinham lhe falado. Nasceu. Não aquele que ela dava em troca de suas cores.
Só ela sabe o quanto lhe perturbava o barulho ensurdecedor de seu passado. O silêncio famigerado dos amores não enterrados. Assim, decreta o fim dos assaltos. Impossível que levem dela o que nem tem. Nunca mais.
Promessa boba. Pronta pra ser quebrada. Feita exatamente porque sabia que não poderia ser cumprida. Mas foi a salvação. Rastreiam o céu. Ninguém podia saber. E se lhe contassem, ela não ouviria. Ela se reconhece, se conhece, se toca.
Finalmente descobre que se movimentar os olhos para aquele lugar, voltados naquela direção, verá milhares de estrelas. Como são bonitas. Brilha! O calor voltou para suas pernas. Achou aquilo que tinha perdido em uma aventura.
Tão jovem e tão esperta. Custou-lhe um par de anos pra saber que já conhecia seu próprio segredo. Embriagada pelo hálito daquela noite, destrancou sua verdade.
Ela não é uma novidade, nem um passado, apenas a vontade de pertencer a si mesma. O cheiro dos dias voltaram a ser só dela. Cansou de dividir pensamentos e roubar idéias. A pele ainda se cura de tantos machucados. Mas ela sabe que conseguiu colocar um ponto final.


segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

A arte do faz-de-conta!

Sempre tive uma relação muito próxima com o teatro. Desde muito cedo. Impossível esquecer os domingos que minha mãe pegava eu e minha irmã e íamos as três de ônibus para Curitiba. As brigas começavam cedo. Sempre queríamos sentar do lado da mãe. Mas, sabiamente, ela nos colocava uma do lado da outra e sentava em outra poltrona. Nós dormíamos a viagem toda.

Quando chegávamos em Curitiba, logo ficávamos super eufóricas por estar naquela cidade toda desconhecida. Parecia bonito e tinha um ar diferente (Ponta Grossa sempre me pareceu um tanto pequeno, mas demorei pra perceber o quanto a cidade era provinciana). A alegria da minha mãe era também super contagiante. Ela sempre adorou ver o mundo acontecendo ao seu redor.
Foram muitas peças. A magia do faz de conta brilhava nos meus olhos. Aquelas luzes, o figurino, os atores... mas tinha também a história... E sempre foi pela história que me apaixonei. Aprendi com o teatro a levar as histórias pra casa e fazer delas minhas.
Muitos anos depois, minha relação com o teatro ficou ainda mais próxima. Tudo graças a uma certa "retumbante timidez" e também devido a um bom encontro, já que "a vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro nessa vida". Assim, comecei a conhecer o mundo do teatro adulto e também a brincar de fazer teatro. E brincar de teatro é brincar de faz de conta... brincar com o corpo... com as histórias.. é brincar com o mundo, com você e com as pessoas ao mesmo tempo!
Mas, tudo isso pra dizer que vocês não podem imaginar a surpresa maravilhosa que tive sexta-feira. Minha querida amiga Day (outra moça apaixonada pelas histórias da vida) me chamou pra assistir A Alma Imoral,pois mais uma vez eu estava em Curitiba. E, dessa vez o bichinho do teatro me mordeu feio, daquelas mordidas que vão deixar cicatrizes para a vida toda. Porque além de um banho de interpretação, Clarice Niskier deu uma tremenda aula de filosofia. Uma noite totalmente inesquecível!
Se eu já era apaixonada por Clarice Lispector, virei fã também da Niskier.. E, assim, juntando todas as minhas paixões... começando e terminando pelo teatro.. descobri que se um dia eu tiver uma filha ela se chamará Clarice.

P.S. - Ninguém entra aqui, mas se entrar,veja:

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

História de um ano de verão

Eu queria ter hoje uma história bem bonita pra te contar. Aí eu fiquei pensando em uma. Lembrei que as que mais gosto são tristes. Sempre as que fazem as lágrimas saltarem no meio da avenida. Imagina uma história que fizesse os olhos choverem em pleno samba? Será esse o motivo de eu construir minha vida tão molhada? Compartilhar um ano com gosto de vendaval já dá um belo conto. A história dos inclassificáveis está mudando. Cada vez mais classificáveis. Viva a serenidade! A vida percorre uma estrada menos esburacada. Mesmo que meus passos ainda desafinem feio, parece que, finalmente, encontrei a brisa. Meus pés ainda são capazes de me fazerem cair lá de cima do arco-íris. Mas aquelas aulas de quando eu era uma menininha... sempre lembro delas, e assim, levanto que nem a bailarina. Meus ensaios estão cada dia melhores. Hora dessas até mostro para você como meus movimentos estão ficando definidos. O medo do escuro não me faz mais procurar qualquer olhar vulgarmente sedutor. Quero sim um par. Azul, vermelho, rosa... Não sei! Mas que venha com a cor doce dos olhos de quem quer amar. Não preciso da mão do Tomas para dormir. A cama me acolhe. Nas noites tristes sei que tenho um amigo daqueles que o Vinicius fala. Passo depois de outro. E o Coxa foi pra primeira divisão! Acho que desse jeito, qualquer dia, até consigo te contar uma história daquelas que ficam pra sempre. Daquelas que parecem uma noite de verão perturbada por goles a mais de cerveja, acompanhadas por conversas apaixonantes.