terça-feira, 17 de junho de 2008

Não podes dançantes

Um certo sentimento gostoso me fez voltar a fazer viagens altamente machucativas. Dessa vez o sabor nem era misturado. E esse passeio era daqueles que vão revirando tudo que encontram dentro da gente. Dia vira noite, paixão vira ódio, medo vira vontade. O coração mostra língua. O estômago se espreguiça. E o pescoço alcança as nuvens. Mas era como se uma tomada me perseguisse. Disparava seus choques e assim não me deixava esquecer. Entreguei-me àquela luzinha. Com um leve mexer de ombros empurrei pra longe todo não pode que me atormentava. Ficaram ali no canto desmaiados, esperando seu tempo de voltar. Fiquei bem quietinha. Queria ver se eles não acordavam do torpor do esbarrão. Olha, tava dando certo, té que em uma noite de lua cheia, alguma coisa lá dentro gritou. Acho que era esse meu monstro que eu tanto escondo. Ele despertou os não podes. Mas como estavam atiçados com as estrelas, resolveram falar não pode para a tristeza. Que rebuliço feliz. Dançaram os não podes e as estrelas. Deram vivas. Contaram-me meu conto de fadas preferido, que é aquele que as cores todas se misturam. Então demos todos as mãos e dançamos o resto da noite daquele jeito que parece que os corpos vão se misturando. Porque até os não podes, às vezes, esquecem do não.

quarta-feira, 4 de junho de 2008

Cartas



Dia normal. Leituras e obrigações. Desci as escadas para ir até o centro. Já eram quase cinco horas, estava atrasada. Mas me detive por alguns segundos na curiosidade habitual que tenho com a caixinha do correio. Uma surpresa quando vi que tinha uma carta mais gordinha. O envelope estava exatamente com a pontinha saindo pra fora. Com todo o cuidado que não costumo ter fui puxando devagarinho. Como estava sem a chave da caixinha, um segundo de descuido significaria ver a carta indo pro fundo do buraquinho. Não saberia de quem era. Ela deslizou, mas eu agarrei com a ponta dos dedos. Consegui! Estava toda alegrinha achando que podia ser um presentinho do Pará. Pois sabe que receber uma carta é como ganhar um presente. Foram dois segundos que os olhos brilharam. Nos dois seguintes enxerguei a marca do Banco do Brasil. Droga! Será que um dia a gente recebe algo que não seja conta ou propaganda?

Boas foram aquelas épocas em que chegava do frio da rua e sorridentemente uma senhora me esperava. Ela estava claramente fascinada com aquelas cartas que eu recebia todas as semanas. Vinham de tão longe... Eu ansiava cada um daqueles envelopinhos tão gostosos. Pegava aquele segredo e subia correndo para o meu quarto. A senhora, coitada, vivia na ilusão de que eu lhe contasse de quem eram, o que diziam, de onde eram... Mas aquele era só pra mim. Lá dentro, sozinha, eu olhava para o selo, para a letra da carta, balançava, olhava através do envelope. E então rasgava pelo ladinho, para que nenhuma letrinha fosse ferida. Que prazer!!!

Eu me angustiava com a demora de um papel tão amado que vinha de tão longe. Insisti para que aprendesse a usar a internet. E foi no que deu. Antes eu sabia que as palavras eram pensadas em um pub, muitas vezes regadas a Guiness. Naquele lugar que sempre nos encontrávamos na saída da estação, onde ficou uma tulipa amarela que deveria ter sido minha. Agora, provavelmente, elas são escritas em uma mesa de biblioteca, de uma máquina usada por milhares e milhares de pessoas. Infelizmente raramente vivo de novo essa sensação da espera que senti hoje a tardezinha ao tentar pegar a carta do Banco do Brasil. Como podia ser tão tola e achar ruim toda aquela expectativa?

Agora o que me resta é esperar uma carta prometida de terras mais quentes que aquela, mas sei não se chega, viu?

segunda-feira, 2 de junho de 2008

Estrela torta






Já levava uns dias que andavam torcendo o nariz.Dias de não. O carnaval já tinha ido embora. Mas as noites insistiam em se alongar. Uma estrela torta caiu em sua frente. A música alta não deixava ela prestar atenção. Segunda, terça, sábado. Terça, sexta, sábado. Aquele cheiro de fumaça andou lhe dando boa noite. Tropeçou no escuro. Viu miragens. Sonhou com príncipe encantado. A nuvem derreteu. O sol deu tchau e finalmente a deixou em paz. Atenção! Atenção! As mãos tocavam a estrela. Era um calorzinho bom. Barulinho de riacho. Contornava-se o gosto daquela história. A estrela torta mostrava-se ora tão apaixonada pelos seus vôos altos, ora tão absorta nas luzes da noite. Enquanto isso a mão continuava a pensar. Deslizava suas idéias pelo mindinho. Arrastava a cortina para não enxergar aquele brilho. Deliciava-se sentindo aquela idéia nova. Mas fugia. Escondia-se no meio das palavras. Falava com o silêncio e não compreendia. Perdia o chão no meio do barulho. Encantava-se com a ternura daquele brilho que dava conta também dos pequenos. Assustava-se em ver no novo o velho. Não era igual, mas corria pelas linhas da sua história. Um óculos que sumia pra dar lugar a vontade. Queria experimentar tudo. Sempre. Queria ousar a dança que não sabia. Se pulasse na estrela teria uma imensidão de sensações novas a conhecer. Mas o dia sempre voltava. A estrela sempre cadente. Mão, mão! Pois não? Fecha a cortina, por favor!________

terça-feira, 27 de maio de 2008

Vingança mode [off]


Faz uns dias que uma coisa muito importante para mim acabou. Sim, eu sou lerdinha e demoro séculos pra processar tudo. Mas, juro, juro, que não sobrou nada... nem amor nem ódio. Mas enquanto eu ainda estava tristinha e remoendo o passado era tão reconfortante ouvir essa música na voz da Mônica Salmaso...

Vingança (Francisco Mattoso e José Maria de Abreu)

Lá na beira do roçado,

Onde a tristeza não vem
Eu vivia sossegado
Com a viola do meu lado
Mais feliz do que ninguém

Numa festa no arraiá
Vi dois óio a me olhá
Decidi no improviso,
Ela me deu um sorriso
E comigo foi morar

Nunca mais fui cantador
E a viola descansou
Eu vivia pra cabocla,
Eu vivia pra cabocla
Só pensava em meu amor

Nunca fui feliz assim
Eu mesmo disse pra mim,
Pensei que a felicidade,
Pensei que a felicidade
Não pudesse ter um fim

Mas um dia a malvada
Foi-se embora e me esqueceu
Com um caboclo decidido,
Juca Antônio conhecido
Cantador mais do que eu

Já cansado de esperar,
Desisti de procurar
A cabocla que um dia
Levou minha alegria
Eu jurei de me vingar

Numa festa fui cantar
E a mulata tava lá
Juro por Nossa Senhora
Juro por Nossa Senhora
Que a cabocla eu quis matar

Mas fiquei sem respirar
Quando vi ela dançar
Ela tava tão bonita,
Ela tava tão bonita
Que esqueci de me vingar

sexta-feira, 23 de maio de 2008

O tempo: vampiro do homem


Saía devagar do torpor do sono. Pensava nas alternativas para aquele dia. Estudo ou sono? Um livrinho divertido ou cinema? De repente aquela voz que conhece desde que ainda nem tinha visto a luz do mundo lhe chamava. A notícia já era esperada, mas não podia ser mais triste. De repente o universo tinha virado a cambalhota que tanto ensaiara. E aquela gana de rasgar o bilhete que ganhara ao nascer. Não compreende muito bem o milagre da vida. Acreditar naquela historinha que tanto lhe contaram? Não conseguia mais. Pode ser que isso deixasse seu dia mais respirável. O ar entrava e saia, mas no meio do caminho parecia que se comprimia. Sabe-se lá quando é que vai resolver parar entre o estômago e a garganta... Ficará lá para sempre? As idéias se derretem como sorvete em dia de calor. Persistem por um segundo. No seguinte se esvaiem em um labirinto. A saga da não linearidade. Voltar para aquela dor que primeiro conheceu. Amedronta-se. Esqueceu como tinha planejado pintar a linha do seu corpo. Na verdade, não sabe mais se alguma coisa daquelas fariam-na suspirar em um sorriso. Esmaga-se na lembrança. Culpa-se pelo choro calado mas também pelo riso gritado. O que será que será? Se coxixassem o segredo daquela chavezinha em seu ouvido... Pode ser que seu amigo tenha muita razão ao dizer que pelo menos foi ele quem pagou as últimas duas garrafas de vodka naquela noite despretenciosa. O calor gostoso do gozo e o torpor do álcool ... AHHHHHHHH!

terça-feira, 13 de maio de 2008

Filme antes do fim


Um par de calças vermelha levantava seu pé direito. Nada via. Apenas sentia um sobe e desce danado dentro da blusa verde. Não enxergava o gosto do mundo. Desenhava suas cores pelo corpo. Numa noite a toa deparou-se com um sorriso. Não era desses que ela via todos os dias. Nem cabia dentro da sua caixinha. Ganhava um doce novo. Cenas coloridas povoaram seu mundo caótico. Não, ela não queria repetir a história. Roncavam os motores. Mais uma vez seus sentidos falhavam. Perdia a audição. Ninguém queria saber de abrir o zíper. Escutava apenas dois olhos negros. A dança podia fazer o filme rodar. Sentia o gira-mundo. O peão caledoscópio lhe mostrava novas poesias. Voltava pelo mesmo caminho. Ansiava ver o fim do filme. Não queria que a história se arrastasse. Os ponteiros do relógio ganharam vida. As folhas do calendário apontavam para o ano-novo. Como? O inverno nem havia começado...Não podia controlar as imagens. Ao mesmo tempo, vestia aquela saia mais uma vez. Sabia que seus passos descompassados lhe faziam tropeçar. Dessa vez não. O zíper não combinava. Que tal trocar? Podiam ser botões. Risca o braço. Pontilha as pernas. A linha desenvolve-se para fora de si. A intensidade lhe nauseia. Não entende o silêncio do tempo. Quando pousa um passarinho na árvore, por que não faz dela seu ninho? Outros olhos desejavam seus suspiros cheios de vontade. Outras vozes gostariam de encontrar com sua língua. Mas o corpo da criatura pedia aquelas entrelinhas. Suas entranhas se aqueceram de conversinhas sem sentido. Ela entendia a riqueza das palavras que se desfazem no vai-e-vem do trabalho. Despejava todo seu rio caudaloso de desejos. Corre, corre, corre! O filme termina antes de ela chegar do outro lado.

domingo, 11 de maio de 2008

Eu: por Mari.




Um dia a Mari escreveu de mim pra mim...

Eu ainda não sei muito bem como isso funciona, mas eu sou forte. Não é para qualquer um ser o que eu sou. Às vezes é sofrido, mas não dá para ser diferente, porque só assim eu sou feliz. Meus amigos e minha família me amam muito, me mimam, abusam de mim, me educam, mandam em mim e me aturam, às vezes. E porque eu amo tanto todos eles, mas tanto, deixo tudo isso acontecer. Às vezes eu olho o mundo e não me encaixo em lugar nenhum, e vou vivendo mesmo assim. Depois, é como se eu tivesse construído um mundo dentro desse mundo estranho, que é só meu e que é muito legal.

E continua a ser verdade naquele sentido dialético, de que os espelhos se multiplicam... de que do real vem a norma e a norma recria o real, recriando também a norma...