sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Novidade


Imagem: A Mulher com Sombrinha - Kirchner

Era Ano Novo e as promessas pareciam grandes. Vira as estrelas da rede. Bebera o juízo e deixara-se cair nos braços bêbados do amigo. Aquele desejo calado beijava. Janeiro na terra da garoa. Chegou o carnaval. A avenida ficou pequena para tantos amores. A chuva derretia o chão e limpava a história. Março. Os novos colegas. Odeio gremista. Assim começou. Não é que até daquelezinho ficou amiga? Trocou o samba pelos inferninhos. A Bohemia pela Heineken. As noites passaram a ser preenchidas por paixões mais rápidas que a luz. Confundiu-se nas escolhas. As cidades com B: Belém, Belo Horizonte, Brasília. Conheceu o sorriso do vendedor de nuvens. O moço derramava encantos. Tropeçava em seus amantes. O mito desencantado. A saudade velada, calada, doída da cidade fria. Nada de visitas. O ano prometia distanciar. Era tempo de refletir. Precisava crescer. Destruir o que ainda restava da Chapeuzinho Amarelo. São Paulo. O amigo do ano-novo. Veio passear. Amaram-se, sorriram e se feriram. Amizade colorida. Benedito Calixto: samba, beijos e cervejas. A realidade lhe chamava. Um encontro com o desespero lhe fez mudar o rumo. Agosto fez parar o furacão. Centrava-se agora em duas mãos pequenas. Fez o caminho se dividir mais uma vez. Reencontrou o primeiro e único amor. Duas horas de encanto e desencanto. Não podia mais ser como tinha sido um dia. A dança, o teatro, o francês. A filosofia! Conhecera quarenta novas pessoas. A sensação de falar sem compreender totalmente. Perdia o medo e ganhava outros. A morte pela primeira vez apareceu. Fazia tanta coisa perder o sentido. Ver a casa sem aquele sorriso. O telefone que nunca mais iria atender.Resolveu escrever seu amor. Parecia que tudo andava tão bem. Mas a vontade de voltar para o olho do furacão não lhe abandonava. Que coisa... que mania essa de desejar, de ver a noite brilhar, de cantar o início da paixão. Falta um mês para tudo começar de novo. E pra novidade chegar...

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Meu vô


Os olhos verdes mais cheios de coco do mundo pediram para descansar. Mas essa gente sem fé chora porque quer ouvi-los assobiar. A próxima florada de café. A parreira carregada. A posse do prefeito. Prato cheio para os passarinhos. Mas e ele? Eram dele as uvas, o leite e os cocos mais doces. As palavras mais ternas e cheias de música. O loro que não aprendeu a falar. A casa que precisa fechar. A banda no coreto da praça. A poltrona para espichar as pernas. Cabeça de menino pequeno pra morder. A vó com a casa pra cuidar. Os meninos com as contas. As histórias de morrer de rir. As palavras de fazer chorar. As minhocas pros peixes. A botina e o chapéu do sítio. A piscina. O pôr do sol mais cor-de-rosa do mundo. A família de mulheres. Os doentes que tinha que cuidar. A pergunta sobre o tempo. Os dias mais quentes de verão. A calçada fervendo... Tanta coisa que nem dá pra contar. Mas os olhos ficam. Não quiseram ir bater papo com o Rui. Continuam a amar. E essa gente sem fé que não pára de chorar.

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Didi, Nego, Dito, vô



Impossível ouvir uma banda tocar, em qualquer cidade do mundo, e não me lembrar imediatamente do vô Dito caminhando firme, porte de galã hollywoodiano e sorrisinho maroto escapando de lado, rumo ao palco de alguma solenidade oficial de sua querida Fartura. Sem o menor pudor de cair no clichê, confesso que conviver com meu avô foi um baita dum imenso privilégio. Assim mesmo, no superlativo. Desses privilégios que a gente precisa agradecer aos céus por ter caído no nosso colo.

Nem mesmo nos últimos dias por aqui ele perdeu a força, o jeito bem-humorado de levar a vida, o interesse pela cotação do preço do café e o cuidado com a família. Segundo dos cinco filhos de Tonica e Isaac, nascido no dia 17 de julho de 1925, irmão de Mariinha, Pio, Álvaro e Zezinho, pai de três homens e três mulheres, avô de 14 e, ufa, recentemente bisavô – ele, que tanto gostava de crianças, felizmente conseguiu curtir os primeiros sorrisos da pequena Lara. E mais: companheiro apaixonado de Dona Juvelina. Na vitória e na derrota, na saúde e na doença, na pobreza e na riqueza. Amando e respeitando. Para sempre.

Vencedor, sim. Não só por ter sido eleito prefeito dessa cidade por três vezes, despachado com governadores de Estado, deputados, colegas prefeitos e vereadores; ou por ter deixado uma marca positiva para gerações e gerações de farturenses, do principal rival político à Maria – que num gesto impressionante fez questão de ajudar a carregá-lo até sua nova morada. (E só para registrar, qual político brasileiro consegue essa proeza hoje em dia?).

Enfim, vô Dito foi um vencedor porque amou muito e sempre será muito amado.

Lembro que, quando menina, adorava pegar no seu “muque”. Achava o máximo quando pensava que ele era bem mais forte que os avôs velhinhos das minhas amiguinhas! A cada reencontro, um frio na barriga, já que um de seus maiores prazeres era mordiscar o cocuruto dos netos. Ele simplesmente não resistia e a gente se resignava, afinal era tão bom estar pertinho do vô Dito de novo...

Ainda era bem pequena quando ele ensinou a mim e ao meu irmão a cantar as marchinhas de carnaval que tocava no trompete com sua banda no coreto. “O seu cabelo não nega, mulata...” Ai, como ele se divertia com a gente! O melhor mesmo era quando resolvia tirar o velho instrumento do armário e “dar uma palhinha”. Olhem só, ele ainda dava show particular pros netinhos!!!!

Com vô Dito aprendi ainda a pescar (ele colocava com a maior paciência a minhoca gosmenta pra gente no anzol); a assobiar (lógico que sem seus requintes melódicos); e a gostar de novela. Mesmo quando minha vó não queria deixar as crianças assistirem “àquelas sem-vergonhices”, meu vô dava um jeitinho de colocar a gente na sala de televisão. Com ele não tinha tempo ruim.

Mais uma vez sem medo de cair no clichê, confesso que ele me ensinou principalmente a amar. Quem é que não se emociona ao presenciar um senhor de idade chorando, sem pudor, de pura felicidade, ao rever momentos marcantes de 50 anos de casamento?

E o danado continua a me surpreender. Terça-feira, 21 de outubro de 2008, pouco depois das 13 horas. Em frente ao túmulo florido, Ângelo Lucareli esperou a saída do cortejo para prestar sozinho sua homenagem ao velho e grande amigo. E confessou para mim, minha irmã e minha mãe: “Ele foi um rapaz bom, de coragem. Gostava de ir na frente de todos. E a gente gostava que ele fosse na frente mesmo, porque o Dito sabia o que fazia e sabia como fazia. Tratava todo mundo bem, gostava de tratar todo mundo bem. Esses paralelepípedos onde você pisa agora, aqui no cemitério, foi ele quem mandou colocar. Ainda me lembro quando chegou o pessoal no caminhão, com as pedras para o calçamento”.
E então: não é pra se encher de orgulho???

Autoria: Mariana Garcia Ribeiro Soares da Silva, jornalista, 30 anos. Neta mais velha de Benedito e Juvelina. Filha de Maria Aparecida Garcia Ribeiro e Jayr Soares da Silva. Irmã de Cássio e Bárbara. Prima de Lívia, Renato, Letícia, Luciana, Marília, Gabriela, Érico, Ana Flávia, Rafael, Isaac e Vitor. E da pequena Lara.


P.S. - mais uma vez a Mari escreveu um texto lindo depois de quinze dias muito tristes... dessa vez sobre meu vô... quanta saudade fica!!

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Foi-se o tempo de menina...


Os olhos que queimam a moça, também fazem despedaçar aos poucos a vontade de sentir-se bem. O cheiro que lhe eterneceu deve sempre ser mantido à distância. Não importa o quão fresquinho e doce lhe pareça. Corpos que não precisam de encontros. Gente livre... Aprisionam pelo timbre da voz. A moça sabe que não pode desejar pedaços, fragmentos, restos. Continua a pulsar. O rio não se acalma mais. Parece hora de rasgar o papel da ilusão. O mar lhe engole, lhe suga. Deixar que a beleza cruel e trágica dos olhos andem por caminhos só seus. Eles não querem dividir seu brilho. A boca se recusa a gostar da outra. Dilacera, estirpa, mata. Não consegue se despedir. A dor, a mão, o beijo. 7 dias, muitas horas, risos e vontades. Engula o choro, moça! Foi-se o tempo de menina. Onde já se viu perder tempo com o amor?
Imagem: Senecio - Paul Klee

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Quer, mas não pode


Aulas, portas, família enforcam seu olhar. A porta que não desvela. Seus pensamentos voam na luz que não esclarece. A vontade faz suas cores transbordarem. Suas mãos desajeitadas. Derrubam, quebram, não sabem dançar. A música toca, mas os pés parecem se enterrar no chão. A vontade reverbera o corpo. A boca. Fala, ri, mas não. Continua a sufocar a verdade. A sala escura corre atrás do sorriso. Aquele monstro que faz viver, chorar, mas não lhe deixa juntar a poesia com a dos olhos escuros. E-mails, palavras, sons já ficaram curtos para vestir seu desejo. Sentir... Poder viver! A palavra novamente a sufocar o olhar. O vento precisa bater pra que elas possam dançar.

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Separar os corpos


Ela chegou em casa com a certeza de que viveu um grande amor. Apaixonou-se. O primeiro pedaço de bolo. Entregou-se sem saber onde pisava. Deu sorte. Daquelas bem grandes. Viveram docemente cada segundo de seus encantamentos. Brigaram com a mesma força que se desejavam. Beberam. Dançaram. Beijaram. Te adoro foi ficando pequeno. As calças ficaram curtas. Tiveram que casar. Amor, coração, bebê! Amigos, família, estrada! Vergonha, medo, ovo... Onde chegariam? Para onde caminhariam se decidissem dar as mãos de verdade? Não sabe... não pode saber. O caminho dividiu. Andavam por ruas que não se cruzavam. Uma rótula, uma esquina, um ponto de ônibus!!! Por favor! Não.. a vida disse não... Seguiram. A máscara, o pincel. O palco. Outro palco. Não tão distantes, mas radicalmente longe. O tempo. Serenou. Diluiu o que construiu. Escorreu. Viu que não podia segurar. Deixou ir. O tempo... Um dia e de novo o palco. A cidade fria. Os olhos iguais, a pele ... o cheiro... Sentiu falta do sal. Quem sabe? Ela sabe! Mas que venha sem dor. Virou as costas, disse tchau e não teve medo de sair. Era seu o corpo. Tinha sido seu e isso não podia ser roubado.

sábado, 20 de setembro de 2008

O novo




Uma folha de papel que desabotoa a pele. Eternecida por palavras que trancavam a garganta. Esperava um novo encontro. Seria como um bolo de chocolate diferente. Será possível? Queimaria-lhe a garganta e derreteria. A folha... Rasgava... Sumia... As palavras esqueciam da dor. Revigoravam-se. Estiradas no chão. Precisavam de farinha, fermento. Amar de faz-de-conta estava-lhe tirando o sono, mas era o suficiente para tornar-se real em outro pedaço de papel. O papel vazio. A caneta sem tinta. O amor, o vazio, a dor, a saudade, a certeza, a vontade, a amizade: vestiram preto e prometeram que não se deixariam juntar, nem mesmo por um pedaço de bolo. Malditas palavras! Doce ilusão...